Cultura Maker e Currículo

* Texto publicado no site rioeduca.net

          Um dos princípios da cultura maker funda-se numa prática ancestral do ser humano que é a curiosidade. E, é quando somos crianças, que tal comportamento mais forte se manifesta. Quantos aparelhos e geringonças eu, quando pequeno, não daria tudo, para poder abri-los e fuçar em suas entranhas e descobrir aquilo que os fazia funcionar: o rádio Philips Solid State de 4 faixas à pilha de minha avó Paulina, o tacômetro da brasillha velha de meu pai e tantos outros mecanismos escondidos dentro daqueles misteriosos e mágicos aparelhos. Ainda menino, na antiga quinta série, lembro-me de recolher em pequenos frascos, aguas de diferentes locais, a pedido do professor de ciências para nossa primeira experiencia no laboratório com o microscópio. Quanta expectativa, ainda hoje, tantos anos depois, lembro com detalhes, o acontecido, a “experiencia”: a preparação da lâmina, a fila para, de um a um, acessarmos um mundo até então desconhecido, onde seres invisíveis a nossos olhos viviam, reproduziam-se e podiam afetar nossa saúde e nosso mundo.

         Hoje, ao olhar para nossas escolas, questiono-me, por que tal método sobrevive somente no campo especializado da disciplina de ciências? E mesmo aí, não é uma pratica difundida, rotineira. Por que outras disciplinas não aderem ou não desenvolvem práticas fundadas no aprender-fazendo, em projetos que, ao mesmo tempo, em que se constroem coisas, aprende-se ao fazê-las, borrando os limites entre discurso e prática? Em nossa escola, por exemplo, desenvolvo um projeto que engloba matemática, linguagem de programação desplugada e movimento corporal como recursos de ensino e de aprendizagem. Trabalhando com crianças na faixa dos 10 e 11 anos dos 6º anos do Ciclo Intermediário, a ideia é incorporar o uso do corpo na aprendizagem de conceitos matemáticos, espaciais e de lógica de programação "materializando-os" no chão da sala de aula. Será que a expressão motora, atuando como manifestação concreta das ideias e conceitos latentes na alfabetização matemática presente nas atividades e desafios construídos pelos educandos não possa ser um método que auxilie a interiorização de conceitos e ideias essencialmente abstratas e, às vezes, tão difíceis de nossas crianças e jovens assimilarem a ponto de consolidar-se um mito de que matemática é difícil?

         A cultura maker também facilita a desverticalização de conteúdos, flexibilizando a seriação e a linearidade do currículo. Por exemplo, pelo currículo tradicional, conteúdos ligados à eletricidade são abordados somente no nono ano do ensino fundamental. No entanto, a implementação de nosso projeto Circuito Elétrico em Papel expandiu tal assunto para os sétimos e oitavos anos também. Como acender um LED? Qual é a energia necessária para mover um motor? Como funciona um circuito elétrico? O que faz uma pilha? O que é um resistor e qual o significado de suas cores? O que é volt e corrente elétrica? Todas essas perguntas podem ser respondidas de diferentes maneiras, mas, acredito que não há melhor modo de fazê-la do que construir, na prática, um circuito elétrico simples, com matérias de baixíssimo custo: papel sulfite, folhas de alumínio, uma pilha e um LED. Ao construir a coisa, aluno e professor se aproximam enquanto pesquisadores e parceiros, testando e planejando ideias, reconstruindo a coisa pensada num espaço de construção colaborativa do conhecimento. Numa palavra, fazem ciência na pratica.

         Um outro projeto, trabalhado por nós juntamente com a disciplina de ciências dos oitavos anos foi a construção de uma mão robótica com material não estruturado (papelão, canudinho e barbante) com o objetivo de compreender o funcionamento dos músculos e tendões ou a comparação entre movimento corporal e as alavancas. As crianças adoraram a experiencia a ponto de outras turmas desejarem realizá-la também.

         Tal atividade pode ser também aplicada para o estudo de maquinas simples presente no currículo dos sétimos anos. Muito depende dum primeiro passo de nós professores, as crianças e jovens aderem sem resistência a modelos diferenciados, mais abertos de aprendizagem. Claro está que, problemas irão acontecer afinal como dizia Paulo Freire, aprender é gostoso, mas exige esforço. Porém, é preciso, em certos casos, compreender que, em projetos dessa natureza, muita das vezes o processo de trabalho, pesquisa e colaboração é mais importante e mais rico do que a apresentação de um produto final, acabado. A riqueza, a aprendizagem e o conhecimento, às vezes, pode se manifestar mais plenamente no processo, no percurso do que na conclusão do projeto trabalhado.

NOTAS:

{1] SÃO PAULO (SP). Secretaria Municipal de Educação. Revista Magistério. n.4. São Paulo: SME/DOT, 2015

[2] SÃO PAULO (SP). Secretaria Municipal de Educação. Aos que fazem a educação conosco em São Paulo. São Paulo: SME, 1989.

         Em projetos “mão na massa” ressignifica-se nosso papel. Ao invés de buscarmos a discussão, abrimo-nos ao diálogo; ao invés de demarcamos posições, buscamos estabelecer relações e, ao contrário de defendermos ideais, as compartilhamos. Tais situações se, por um lado, diminuem nosso controle sobre as direções da aprendizagem, por outro, geram a diversificação do currículo e a possibilidade do rompimento de um discurso linear e hipersegmentado tão característico do modelo clássico de escola, por um outro, integrador, onde é dada autonomia às crianças e jovens para testar suas ideias, utilizando regras e estruturas preestabelecidas colaborativamente. Lócus onde a capacidade de reproduzir não deve ser a única, nem a mais importante dimensão na organização e na construção do currículo[1].

        Conquistar a velha escola e transformá-la num centro de pesquisa e experimentação[2] talvez nos permita transformar, progressivamente, o currículo em vivencia, onde o educar incorpore o interativo, o lúdico e o autoral na sala de aula.

 

BIBLIOGRAFIA

PAPERT, Seymour. A máquina das crianças: repensando a escola na era da informática. Tradução de Sandra Costa. Porto Alegre: Artes Médicas, 2008.

DEMO, Pedro. Educação Científica. B. Téc. Senac: a R. Educ. Prof. Rio de Janeiro, v.36, n.1, jan/abr. 2010.

CEPPI, Giulio; ZINI, Michele (Org.). Crianças, espaços, relações: como projetar ambientes para a educação infantil. Tradução: Patrícia Helena Freitag. Porto Alegre: Penso, 2013.

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